Dia 15. Mês de março. Passava das três da madrugada. Ana caminhava em direção à sua casa. Era uma noite fria, ventava bastante. Não havia ninguém na rua, além das folhas das árvores que caiam sem parar. Ela não temia. Não desconfiava, apesar de olhar à sua volta o tempo inteiro. Ela só queria chegar em casa.
Sua mãe havia lhe dito mais cedo: “Não ande por aí sozinha, deu no noticiário local que há um serial kiner”. Ana não conteve o riso, corrigindo-a: “Serial killer, mãe. Fica tranquila, não vai acontecer nada comigo”. Lembrou-se disso enquanto andava, balançando a cabeça e acreditando em suas palavras. Não vai acontecer nada comigo. O caminho parecia não acabar nunca, e de repente, sentiu que estava sendo seguida. Não conseguia parar de olhar para trás, aumentando seus passos cada vez mais. As ruas por onde ela passava se tornavam desertas e mal iluminadas a cada instante, o que fazia com que Ana se desesperasse cada vez mais.
- Ana… - surge uma voz do meio do nada.
Foi o ápice do desespero. Ana correu como se tivesse visto uma assombração. Ela questionava se tudo isso era fruto do seu medo. Enquanto pensava, tropeçou em alguma coisa e espatifou-se no chão. Talvez tenha desmaiado, pois sua lembrança seguinte era de estar em um consultório psiquiátrico velho, amarrada em um divã. Havia uma fita em sua boca. 
- Bom dia, Ana. Como você se sente? - a voz tão temida vinha de um velho, assim como seu consultório - Ouço muito sobre você. Você traz muitos problemas para a sua mãe, não é mesmo?
Na hora ela soube quem era o tal velho. Era o Dr. Jekyll, terapeuta de sua mãe. Seu desespero era notável, seus olhos refletiam o pavor que ela sentia.
- Sua pobre mãe lhe avisou tanto para não ficar até tarde na rua, não é mesmo? Será que você não sabe que há um serial killer por aí, menina? Admito que a mídia aumenta. Modéstia à parte, só faço o meu trabalho. Alivio o coração das pessoas eliminando os problemáticos. Se você soubesse o quanto as pessoas passam a enxergar a vida de outro jeito depois disso… - Ele fez uma breve pausa, parecia ler anotações - Você fala demais. Diz o tempo todo que sua mãe é um saco. Bem, vamos iniciar o tratamento de choque.
Ana chorava sem parar. Queria gritar, não conseguia. Pedia por favor, ainda que suas palavras não fossem compreensíveis. O velho a torturou durante horas, sempre repetindo que ela devia ter dado valor à sua mãe, que ela deveria ter sido uma boa garota. Fazia Ana pedir perdão, ainda que em vão. Ela já não tinha esperanças, embora lutasse ferozmente por sua vida. Ele queimava sua língua com ferro quente, e mandava que ela repetisse “perdão” várias vezes. Sua boca sangrava demais. Tudo durou em torno de cinco horas. Mas para Ana, durou uma eternidade. Até que ele enfiou um saco em sua cabeça, que morreu asfixiada. Antes disso, ele disse:
- Você morrerá por sua mãe ser um saco. Morrerá por sua mãe não deixar você respirar. Não me culpe, culpe a si mesma.
O corpo foi encontrado no dia seguinte, num beco próximo à casa de Ana. A polícia nunca teve pistas sobre quem seria o tal serial killer. Nem a mãe dela. 

A Terapia da Ana, por Nicole Cardoso – 

Dia 15. Mês de março. Passava das três da madrugada. Ana caminhava em direção à sua casa. Era uma noite fria, ventava bastante. Não havia ninguém na rua, além das folhas das árvores que caiam sem parar. Ela não temia. Não desconfiava, apesar de olhar à sua volta o tempo inteiro. Ela só queria chegar em casa.

Sua mãe havia lhe dito mais cedo: “Não ande por aí sozinha, deu no noticiário local que há um serial kiner”. Ana não conteve o riso, corrigindo-a: “Serial killer, mãe. Fica tranquila, não vai acontecer nada comigo”. Lembrou-se disso enquanto andava, balançando a cabeça e acreditando em suas palavras. Não vai acontecer nada comigo. O caminho parecia não acabar nunca, e de repente, sentiu que estava sendo seguida. Não conseguia parar de olhar para trás, aumentando seus passos cada vez mais. As ruas por onde ela passava se tornavam desertas e mal iluminadas a cada instante, o que fazia com que Ana se desesperasse cada vez mais.

- Ana… - surge uma voz do meio do nada.

Foi o ápice do desespero. Ana correu como se tivesse visto uma assombração. Ela questionava se tudo isso era fruto do seu medo. Enquanto pensava, tropeçou em alguma coisa e espatifou-se no chão. Talvez tenha desmaiado, pois sua lembrança seguinte era de estar em um consultório psiquiátrico velho, amarrada em um divã. Havia uma fita em sua boca. 

- Bom dia, Ana. Como você se sente? - a voz tão temida vinha de um velho, assim como seu consultório - Ouço muito sobre você. Você traz muitos problemas para a sua mãe, não é mesmo?

Na hora ela soube quem era o tal velho. Era o Dr. Jekyll, terapeuta de sua mãe. Seu desespero era notável, seus olhos refletiam o pavor que ela sentia.

- Sua pobre mãe lhe avisou tanto para não ficar até tarde na rua, não é mesmo? Será que você não sabe que há um serial killer por aí, menina? Admito que a mídia aumenta. Modéstia à parte, só faço o meu trabalho. Alivio o coração das pessoas eliminando os problemáticos. Se você soubesse o quanto as pessoas passam a enxergar a vida de outro jeito depois disso… - Ele fez uma breve pausa, parecia ler anotações - Você fala demais. Diz o tempo todo que sua mãe é um saco. Bem, vamos iniciar o tratamento de choque.

Ana chorava sem parar. Queria gritar, não conseguia. Pedia por favor, ainda que suas palavras não fossem compreensíveis. O velho a torturou durante horas, sempre repetindo que ela devia ter dado valor à sua mãe, que ela deveria ter sido uma boa garota. Fazia Ana pedir perdão, ainda que em vão. Ela já não tinha esperanças, embora lutasse ferozmente por sua vida. Ele queimava sua língua com ferro quente, e mandava que ela repetisse “perdão” várias vezes. Sua boca sangrava demais. Tudo durou em torno de cinco horas. Mas para Ana, durou uma eternidade. Até que ele enfiou um saco em sua cabeça, que morreu asfixiada. Antes disso, ele disse:

- Você morrerá por sua mãe ser um saco. Morrerá por sua mãe não deixar você respirar. Não me culpe, culpe a si mesma.

O corpo foi encontrado no dia seguinte, num beco próximo à casa de Ana. A polícia nunca teve pistas sobre quem seria o tal serial killer. Nem a mãe dela. 

A Terapia da Ana, por Nicole Cardoso  

22/01/2012 @ 11:34


Me ensina como é matar o amor, já que no teu peito morrera aquilo que existia por mim. Ou talvez nem tenha sido amor. Talvez, tenha morrido apenas a flor - da semente que um dia plantei em ti.
— Nicole Cardoso (via enigmadecapitu)
26/10/2011 @ 23:11


Nosso amor agora tem cheiro de livro antigo. Tem cor de livro antigo. É tudo sépia. É feito raridade. Daquelas que acabam, é claro. Tudo acaba. Até o nosso amor.
Ficou na estante.
Passou dias inteiros esquecido.
E haviam tantas palavras…
Tantas memórias…
Tantas reticências…

Até que teve o ponto final.

Nosso amor é aquele livro antigo. Não nos desfaremos dele.
Mas não o leremos mais.
— Nicole Cardoso (via enigmadecapitu)
26/10/2011 @ 21:54

Como se a caneta fosse uma faca, talhei no papel as palavras finais. Romance mal escrito, paixão mal incendiada. Era o fim, mas eu ainda criei uma necessidade ridícula de dizer algumas coisas para ti. “Já vais tarde, pois roubaste mais do que um pedaço do meu precioso tempo. Roubaste meu coração que outrora sorria por sentir os afagos da solidão. Como se já não bastasse, transformaste minha vida em seu caleidoscópio particular. Vias que eu era teu, não é mesmo? Tinhas certeza de que nada lhe faria partir. Mas algo fez, algo fez. Algo tão horrendo como teu próprio pensamento tentador. Havia chances de continuares teu caminho sem mim, e não hesitaste na escolha. Tudo bem, eu te perdoo. Perdoo pelas próximas noites sem fins, choradas à beira da janela, lembrando de como o céu era mais bonito por saber que tu estavas em algum lugar do mundo pensando em mim. Perdoo pelos traumas incessantes, pela vida mal arranjada, pelo teu futuro arrependimento. Te perdoo por um dia quereres voltar ainda que tenhas causado estragos suficientes em meu pobre coração. Sem mais. Com amor.”
Nicole Cardoso

Como se a caneta fosse uma faca, talhei no papel as palavras finais. Romance mal escrito, paixão mal incendiada. Era o fim, mas eu ainda criei uma necessidade ridícula de dizer algumas coisas para ti. “Já vais tarde, pois roubaste mais do que um pedaço do meu precioso tempo. Roubaste meu coração que outrora sorria por sentir os afagos da solidão. Como se já não bastasse, transformaste minha vida em seu caleidoscópio particular. Vias que eu era teu, não é mesmo? Tinhas certeza de que nada lhe faria partir. Mas algo fez, algo fez. Algo tão horrendo como teu próprio pensamento tentador. Havia chances de continuares teu caminho sem mim, e não hesitaste na escolha. Tudo bem, eu te perdoo. Perdoo pelas próximas noites sem fins, choradas à beira da janela, lembrando de como o céu era mais bonito por saber que tu estavas em algum lugar do mundo pensando em mim. Perdoo pelos traumas incessantes, pela vida mal arranjada, pelo teu futuro arrependimento. Te perdoo por um dia quereres voltar ainda que tenhas causado estragos suficientes em meu pobre coração. Sem mais. Com amor.”

Nicole Cardoso

15/10/2011 @ 17:38

Meu amor bate no teu peito? Então lute.

Lute por mim. Lute de verdade: esqueça orgulho, passado, presente. Esqueça você - lembre-se de nós. Tua luta começa agora.

               Só não espere eu partir de vez…

Nicole Cardoso

15/10/2011 @ 17:28


O que você pretende fazer? O que irá te suprir após esse incansável e surrado amor se esgotar? O que serão das tuas lágrimas sem os meus afagos? O que será de ti sem mim?
O mesmo que eu sem ti (eu senti): pobres cacos sem importância.
— Nicole Cardoso
15/10/2011 @ 13:48


Se me falassem do teu sorriso, eu sorriria. Não pela felicidade que seria tua, mas pela ausência que as curvas do teu rosto me causam. Só a lembrança terna do seu sorriso causa um frisson em minha alma.
— Nicole Cardoso
15/10/2011 @ 13:10

O conto do vigário confuso.

O que fizeste de nós? Desatou-nos. Não há laços, embora alguma força ainda nos prenda. Onde foi que tu perdeste? O prumo, o rumo, o coração. Estão todos pelo caminho. Éramos o casal mais bonito, o amor mais vivido, a história perfeita. Éramos a família, a magia, o barquinho no mar - você, eu e nosso pequeno. Onde foste parar? Não há quem defenda nosso amor, não há quem acredite novamente em nós - infelizmente, nem eu. 

A volta do vigário confuso fez do golpe um enorme abismo entre o amor e o correto.

Nicole Cardoso

15/10/2011 @ 12:34

E aí, meu menino… Por acaso tu não disseste que daríamos a volta ao mundo? Pois bem. Ando a te esperar (involuntariamente). É que não sei seguir sem ti. Ou não quero.
Nicole Cardoso

E aí, meu menino… Por acaso tu não disseste que daríamos a volta ao mundo? Pois bem. Ando a te esperar (involuntariamente). É que não sei seguir sem ti. Ou não quero.


Nicole Cardoso

15/10/2011 @ 12:18

15/10/2011 @ 12:14


Ao fechar os olhos, todas as noites, lembro religiosamente de ti. Feito prece de boa noite, anjos da guarda que zelam por nós. Penso no teu sorriso, desejo-te bom descanso e dou-lhe beijo para ninar-te (secretamente em minhas memórias mais infames). Nem desconfias pois achaste nos braços de outra uma melhor reza. Oração atendida. Perdão, Senhor, é o que eu peço. Perdão por ousar amar o vácuo. Perdão por não saber esquecer o inesquecível.
— Nicole Cardoso
15/10/2011 @ 11:57

Indagação memorial.

Ainda choro quando lembro de nós dois. De você. Lembro do seu sorriso, da sua pele em minha mão. Lembro das nossas risadas, dos nossos momentos. Fecho os olhos. Sinto-me inundar pelas lembranças (ou lágrimas?). Desenho na mesa nossas iniciais. Um coração, falho. Velho. Quebrado. Éramos nós. Nós que se desfizeram. 

Lembro de nós dois. Lembro ou não esqueço?

Nicole Cardoso

15/10/2011 @ 1:14


Lembra que eu disse que um dia escreveria um livro pra ti? Esse dia chegou.
Toma. Meu coração. Leia, mas leia com calma. É teu livro. É teu amor.
— Nicole Cardoso
15/10/2011 @ 0:32

Um beijo, duas xícaras vazias;

Um silêncio profundo se fez. Olhares desviados, tiques nervosos.

(…)

– Quando é que você parte?

– Amanhã, cedo.

– Você precisa mesmo ir?

– Precisar, não preciso. Mas cê sabe, é melhor.

– Melhor pra quem? - o tom da voz dele subiu, seus olhos ficaram apertados.

– Melhor pra mim e pra você, é claro.

– Você nem ousa mais dizer “nós”. Logo você, que só usava essa palavra.

– Não torna as coisas mais difíceis.

– Pra você é fácil - ele virou o rosto enquanto bufava.

Silêncio (…)

– Não diz besteira. É pior pra mim.

– Por quê?

– Porque eu preciso ter força suficiente pra abandonar uma história linda, mas que infelizmente virou história.

– E eu preciso esquecer que você me abandonou por não me amar mais.

– Eu te amo… E talvez essa seja minha maior motivação.

– Tudo, menos amor. Diria até que seja covardia.

– Covardia é ficar só por não ter peito suficiente pra aguentar uma separação.

– Você não me ama mais.

– E você, me ama? 

– Que pergunta mais idiota! É claro que eu te amo.

– Me ama tanto que só enxerga o teu jeito de amar. Só enxerga o teu desejo, o teu sentir. Amar é preocupar-se com a felicidade do outro. Eu me preocupo com a tua!

– Minha felicidade é você!

– Sua felicidade é o comodismo. Você sabe que não estamos bem há meses.

– Quer saber? Você quer ir embora? Então vá.

Ele se levantou da mesa, bateu a porta da cafeteria. Andou até o orelhão da esquina. Bufou. Permaneceu ali durante cinco minutos. Voltou até ela.

– Saiba que eu te amo. E eu acredito no teu amor.

Deu-lhe um beijo longo. Foi embora sem olhar pra trás.

Nicole Cardoso

14/10/2011 @ 23:30


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A Capitu Contemporânea.

Nicole Cardoso, 19. Rio de Janeiro.
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